Wednesday, October 17, 2007

O amor que é preciso para partir

Por fim, pôde confessar a si mesmo que nunca conhecera ninguém a quem amasse tanto, que nunca encontrara ninguém, homem ou mulher, que a igualasse [a Florence] em seriedade. No caso de ter ficado com ela, talvez se tivesse centrado mais e sido mais ambicioso em relação à sua própria vida e tivesse escrito aqueles livros de História.
(...) Quando pernsava nela, ficava pasmado por ter deixado partir aquela rapariga com o seu violino. (...) Tudo decque ela precisava era da certeza do seu amor e de que ele lhe garantisse que não havia pressa, quando tinham a vida inteira pela frente. Amor e paciência - se ao menos ele tivesse possuído os dois ao mesmo tempo - por certo tê-los-iam ajudado aos dois. E então que crianças por nascer teriam tido as suas oportunidades, que menina com uma fita no cabelo se teria tornado a sua filha adorada? É assim, não fazendo nada, que todo o curso de uma vida pode ser alterado. Na praia de Chesil ele poderia ter chamado Florence, poderia ter ido no seu encalço. Não sabia, ou não quis saber que, quando ela fugiu dele, segura na sua angústia de que estava prestes a perdê-lo, ela nunca o amara mais, ou mais desesperadamente, que o som da sua voz teria sido uma libertação, e que ela teria retrocedido. Em vez disso, permaneceu no frio e no silêncio virtuoso do fim daquele dia de Verão, vendo-a caminhar apressada pela praia, com o som do seu avanço penoso abafado pelas pequenas vagas, até se tornar uma mancha indistinta, um ponto a desaparecer contra a imensa estrada de seixos a brilhar na luz pálida do lusco-fusco.
Ian McEwan, Na Praia de Chesil.
A magia dos livros é precisamente a de nos levarem, de súbito, a sentir que estamos a ser chamados, que algo ali se relaciona connosco. Li muitos romances deste autor, mas em nenhum deles as últimas páginas me tinham levado ao estado que estas me levaram.
Sentada num banco de autocarro, numa manhã fria, com quatro horas de sono, após dar uma aula, uma rapariga luta entre o continuar a ler e o proibir as lágrimas de cairem. Essa rapariga sou eu, numa epifania. A identificação entre estes pensamentos de Edward (a personagem masculina) e alguém da minha vida é quase perfeita.
Porque muito se perde irrecuperavelmente em pequenos momentos em praias de Chesil. E também porque percebi que não sou a única a acreditar que o amor no acto da partida também existe.

2 comments:

Patricia said...

E esta rapariga sou eu. Que numa manhã de trabalho leu as tuas palavras, emocionou-se e se reviu tambem um bocadinho nelas.

Obrigada pelo texto...

"o amor... é um permanente desencontro" ouvi um dia alguém dizer.. Esperemos que não seja sempre verdade. :)

Anonymous said...

Só para dizer que gostei de vos ler às duas (aliás aos três) :) E um dia ele vai encontrar-vos! Beijinhos grandes minhas bloguistas preferidas, só equiparadas com a priminha, claro - já agora faço a publicidade: www.historiasdomundo.blogspot.com
hehehe